Home Data de criação : 08/07/19 Última atualização : 11/10/17 11:20 / 1031 Artigos publicados

OS PIONEIROS DA MÚSICA ELETRÔNICA  (Musica Mundo) escrito em terça 16 dezembro 2008 00:48

kraftwerk

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Desde os anos 70 até os dias de hoje, o grupo alemão Kraftwerk, pioneiro na utilização de equipamentos eletrônicos na música, permanece popular por todo o mundo mostrando a cada trabalho muita criatividade e grande percepção da relação que o mundo tecnológico tem com o ser humano. Alguns artistas de Kraftwerk eram, exclusivamente, profissionais de engenharia de som antes de serem músicos, e outros tem formação clássica em Conservatórios na Alemanha. Foram eles que iniciaram a utilização e criação de bateria e percussão eletrônica, tanto em shows quanto em suas gravações em seu próprio estúdio chamado Kling Klang. A estrutura e o visual de suas apresentações são bem diferentes do convencional. Cada integrante do grupo, ao invés de tocar um instrumento, utiliza um laptop para reproduzir os arranjos musicais. Atráz dos músicos, há um telão de 15 metros de altura projetando imagens de vídeo sincronizadas com a música. (Mais informações)

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Conheça um pouco da história sobre as primeiras experiências com a música eletrônica relacionada a cooperação alemã e a biografia detalhada sobre o Kraftwerk e fotos


 

Uma Epopéia Eletrônica

 

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As primeiras experiências sonoras envolvendo equipamentos eletrônicos datam do início do século 20, e os primeiros "músicos" na verdade eram pesquisadores que investigavam como se processava a síntese do som, utilizando-se de componentes preparados em laboratório.

Os passos que levariam os resultados destas primeiras experiências sonoras para a criação de uma música propriamente eletrônica foram dados a partir dos anos 30. A partir da invenção da fita magnética na Alemanha, foram realizadas as primeiras colagens sonoras, gerando composições que os tradicionais instrumentos musicais não conseguiam reproduzir. Esta música foi denominada "música concreta", celebrizada através das criações do francês Pierre Schaeffer. Com a rápida evolução dos equipamentos eletrônicos à disposição dos artistas, eles passaram a se interessar e a se utilizar das possibilidades de composição com estes "instrumentos", principalmente os músicos eruditos e de vanguarda, como John Cage, Edgar Varèse, Iannis Xenakis, Terry Riley, Herbert Eimert e talvez o mais célebre de todos, Karlheinz Stockhausen. Dava-se um passo adiante da "música concreta", procurando criar composições genuinamente eletrônicas e não apenas baseadas em sons pré-gravados. No entanto, estas ainda eram criações distantes do ouvido popular, restritas muitas vezes às salas de concertos, happenings e apresentações para um público reduzido.

Krautrock e Organisation

A partir da metade dos anos 60, os instrumentos eletrônicos passaram a ser utilizados em larga escala dentro de uma música mais comercial, através de grupos como o Pink Floyd e músicos como Wendy Carlos. Esta "adolescência" da utilização de sintetizadores e processadores eletrônicos de som teve uma influência muito particular em uma geração de músicos alemães que ainda buscavam uma identidade genuinamente alemã em suas criações, após o vazio cultural deixado pelo pós-guerra. Misturando elementos do rock psicodélico do final dos anos 60 com improvisação jazzística e experimentações eletrônicas, surge um gênero que seria rotulado no meio musical como "Krautrock". Grupos como Can, Tangerine Dream, Neu! e Faust tornariam-se os representantes máximos deste gênero musical, onde uma absoluta liberdade criativa se fundia a uma absoluta disciplina técnica (muitos destes músicos possuíam formação clássica e jazzística). Onde o rock progressivo afirmaria "veja o quão rápido meus dedos podem tocar", o Krautrock refutava com algo como "veja o quão LONGE nós podemos ir".

É nesta atmosfera que surge aquele que viria a ser um dos mais influentes grupos de música eletrônica do planeta, o equivalente na música eletrônica àquilo que os Beatles representaram no rock e na música popular. Nascidos na região industrial do Vale do Rühr, Ralf Hütter (Krefeld, 20/08/1946) e Florian Schneider Esleben (Düsseldorf, 07/04/1947) eram músicos de formação clássica que frequentavam o mesmo curso de improvisação jazzística no Conservatório de Düsseldorf, em 1968. Insatisfeitos com algumas limitações da música clássica e com opiniões semelhantes a respeito dos recursos que os equipamentos eletrônicos poderiam proporcionar às suas idéias musicais, eles começam a participar de apresentações em galerias e universidades alemãs, afastando-se das concepções tradicionais de composição musical. Florian já incorporava unidades de eco e amplificação em suas flautas e violino, e Ralf basicamente fazia o mesmo em relação aos teclados. Dividiam os palcos com vários instrumentistas, muitas vezes diferentes a cada apresentação, onde as improvisações eram frequentes. Com o crescente interesse na Inglaterra/EUA pelo som divulgado pelos grupos alemães Tangerine Dream e Can, que haviam excursionado pela Europa e que seguiam basicamente o mesmo estilo musical, eles resolvem criar o que seria o embrião do Kraftwerk, o grupo Organisation.

Composto por Ralf (teclados) Florian (flautas e efeitos sonoros), Basil Hammoudi (vocais), Butch Hauf (baixo) e Fred Monicks (percussão), o Organisation lança em 1970 pela RCA inglesa seu primeiro e único disco, intitulado "Tone Float". Com um som bastante influenciado pelas experimentações do Pink Floyd e da música psicodélica do final dos anos 60, o disco teve uma repercussão pequena, com vendas insignificantes. No mesmo ano, Ralf e Florian estabelecem seu próprio estúdio no centro de Düsseldorf (o célebre Kling Klang, que se encontra no mesmo local até hoje) e passam a trabalhar na concepção de um novo disco, utilizando-se dos instrumentos tradicionais e de equipamentos eletrônicos construídos por eles mesmos.

 

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Kraftwerk e os primeiros álbuns

O álbum é lançado ainda em 1970, já como Kraftwerk, e os primeiros ecos do que viria a ser o som do grupo mais tarde já podiam ser notados. De fato, o álbum do Organisation pouco tinha a ver com o som mais rítmico e melódico que viria a ser desenvolvido pelo Kraftwerk nos anos seguintes. Mas este primeiro álbum (simplesmente "Kraftwerk") já norteava as linhas básicas que seriam desenvolvidas. Lançado pela Philips, o álbum teve um relativo sucesso de vendas, considerando o público que consumia este gênero musical.

O segundo álbum ("Kraftwerk 2", de 1971) não tardou a ser lançado, sendo praticamente uma continuação do trabalho anterior. Posteriormente, os dois discos seriam relançados na Inglaterra como um único álbum, e mesclavam uma influência do ambiente industrial em que viviam, refletidas em composições mais experimentais como "Stratovarius","Von Himmel Hoch" e "Megaherz", com composições mais melódicas e rítmicas, como "Ruckzuck" e "Kling Klang". Os dois primeiros álbuns ainda contavam com a participação de outros músicos além de Ralf e Florian, como Eberhardt Kranemann (baixo), Andreas Hohman (percussão), Charly Weiss (percussão), Houschäng Néjadepour (guitarra), Plato Kostic (baixo), Michael Rother (guitarra) e Klaus Dinger (percussão). Estes dois últimos viriam a formar mais tarde um dos pilares do Krautrock, o Neu!. Para a produção destes dois álbuns, eles também contariam com a decisiva participação do lendário engenheiro Konrad Plank, responsável por boa parte da produção dos melhores álbuns do Krautrock.

Em 1973, já somente como uma dupla, Ralf e Florian realizam seu primeiro show fora da Alemanha, em um subúrbio de Paris. É nesta época que eles conhecem aquele que viria a ser considerado mais tarde como o "quinto" membro do Kraftwerk, o artista multimídia Emil Schult. Schult, que trabalhava simultaneamente com diversos aspectos das artes visuais (pintura, fotografia, cinema) também era músico, e viria a ter influência decisiva na concepção visual e na identidade artística do Kraftwerk, desde a capa dos discos até o formato das apresentações. No início, porém, sua contribuição era somente musical, tocando guitarras e violinos em algumas apresentações. Mas em novembro daquele ano (73) o grupo lança seu terceiro álbum ("Ralf & Florian"), e as primeiras intervenções visuais de Emil se fazem presentes. Nas cópias originais alemãs, o álbum foi lançado com um encarte de 8 páginas contendo ilustrações referentes ao Kraftwerk, desenhadas por ele. Musicalmente, o álbum mostra um salto de qualidade em relação aos dois primeiros discos. As experimentações típicas do Krautrock vão dando lugar a faixas mais estruturadas rítmica e melodicamente como "Tansmuzik" e "Elektrisches Roulette", onde a identidade musical do Kraftwerk já começa a se cristalizar. Neste período, as apresentações ao vivo já eram realizadas com o auxílio de baterias eletrônicas no lugar de um instrumentista, mas o resultado final ainda não os agradava plenamente, pois os aparelhos muitas vezes falhavam ou tornavam-se irregulares no ritmo. Havia a necessidade de contar com um percussionista, mas não para tocar o instrumento da maneira convencional, mas alguém que se dispusesse a utilizar dos recursos eletrônicos aplicados à percussão.

 

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Wolfgang Flür e o sucesso de "Autobahn"

Em 1974, o baterista Wolfgang Flür (Frankfurt, 17/07/1947) foi integrado ao grupo, e logo a inventividade e a atitude inovadora que sempre diferenciou o Kraftwerk mostrou seus primeiros frutos. Ralf e Florian já haviam criado diversos equipamentos eletrônicos rudimentares que usavam em seus primeiros discos e shows, e já em "Ralf & Florian" se nota o uso de um vocoder (equipamento que processa a voz humana gerando a característica voz de robô) primitivo em "Ananas Symphonie", desenvolvido por eles. Junto com Wolfgang Flür, eles desenvolvem uma percussão eletrônica baseada em pequenos sensores de metal conectados a geradores de áudio, e que seria a precursora das baterias eletrônicas fabricadas por empresas como a Roland, anos mais tarde. De fato, Flür pode ser considerado um dos primeiros bateristas eletrônicos da história da música moderna, e a utilização destas baterias seriam uma das marcas registradas do Kraftwerk em suas apresentações ao vivo. Além de Wolfgang Flür, em 74 também seria integrado ao grupo o violinista Klaus Roeder. Este ano marcaria uma mudança radical em termos comerciais e musicais, com o lançamento de seu quarto álbum, intitulado "Autobahn".

Após a discreta repercussão de seus 3 primeiros discos, "Autobahn" teve um sucesso surpreendente em ambos os lados do Atlântico, alcançando o "Top 5" na Inglaterra e EUA. A faixa título, "Autobahn", foi lançada em compacto, alcançando o 11° lugar nas paradas britânicas e 25° nos EUA. Tornou-se um dos clássicos do Kraftwerk, tocada nos shows do grupo até hoje, e inaugurando uma série de álbuns conceituais que viriam a seguir. "Autobahn" é uma celebração das sensações que acompanham uma viagem de automóvel pelas auto-estradas alemãs (autobahns), e foi a primeira música do grupo a contar com letras e vocais cantados. Não era muito comum uma faixa totalmente eletrônica de 22 minutos de duração alcançar tamanho sucesso comercial, e o fato tornou-se um marco para a história da música pop. Merece destaque também a faixa "Kometenmelodie", onde o uso do violino com efeitos eletrônicos é marcante, e que também acabou sendo lançada em compacto.

 

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A formação clássica e "Radioactivity"

Esta consciência já se faz refletir em seu próximo álbum, o primeiro com a formação clássica, "Radioactivity". Este álbum não alcançaria o sucesso comercial do anterior "Autobahn", mas marcaria um passo adiante em termos de concepção artística e musical. A começar pela arte das capas, concebidas por Emil Schult, já totalmente integrado ao universo do Kraftwerk. Emil já havia criado a capa da versão alemã de "Autobahn", e desenvolveu para "Radioactivity" a idéia conceitual para a ambiguidade do termo "radioatividade", opondo o significado mais imediato (ondas radioativas) ao implícito nas letras do álbum (emissões radiofônicas). A capa e a contracapa mostram a imagem estilizada de um rádio antigo, trazendo no encarte interno a imagem de uma antena de emissão, junto com as letras e uma pequena foto de Emil.

É interessante ressaltar que a partir de "Radioactivity", todos os álbuns do Kraftwerk seriam lançados também com músicas na versão em inglês, incluindo as letras. Portanto, "Radioactivity" havia sido lançado inicialmente na Alemanha como "Radioaktivität", com as versões das músicas cantadas em alemão. Musicalmente, "Radioactivity" já possuía todas as características que identificavam o estilo criado pelo Kraftwerk, com a utilização exclusiva de sons totalmente eletrônicos. Os instrumentos acústicos (flautas, violinos e guitarras) já não seriam mais utilizados. Somente nas apresentações ao vivo é que Florian ainda utilizaria suas flautas, porém tratadas eletronicamente.
Este era mais um álbum conceitual, um passeio pelo mundo das emissões de rádio (radiofônicas e radioativas). Faixas como "Antenna", "Radioactivity" e "Airwaves" já se mostram composições eletrônicas totalmente originais para a época, ao mesmo tempo inovadoras e com certo apelo comercial. De fato, estas eram músicas bem diferentes das experimentações mostradas nos primeiros discos, onde praticamente não havia melodias. Outra inovação ocorreria nas apresentações ao vivo, onde foi utilizada uma iluminação de palco singular ,com caixas de luzes neon trazendo o nome dos membros, luzes fluorescentes entre os equipamentos e slides projetados sobre o palco. Somados aos equipamentos não muito usuais e à uma música inovadora, o efeito final já era impressionante.

 

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"Trans Europe Express" e "The Man Machine"

O próximo álbum conceitual, "Trans Europe Express" (na versão original alemã "Trans Europa Express"), lançado em 1977, afirmaria o domínio dos membros do grupo sobre as técnicas de composição eletrônica, principalmente em relação às percussões. A faixa título ilustra muito bem essa evolução, uma impressionante composição que descreve uma viagem continente adentro no famoso trem europeu, com teclados grandiosos e um ritmo fortemente marcado pelo uso pioneiro do sequenciador. O álbum pode ser considerado como uma espécie de homenagem à cultura européia, trazendo faixas evocativas ao continente ("Europe Endless") e à cultura germânica ("Franz Schubert"). Destaques ainda para a hipnótica "The Hall of Mirrors"(que nos anos 80 ficaria muito conhecida no Brasil através de uma propaganda de calçados) e "Showroom Dummies", que introduziria um conceito que viria a ser utilizado mais adiante nos shows do Kraftwerk: a utilização de manequins no palco, os "dummies", com as feições características de cada membro do grupo.

O ano seguinte (1978), marca o lançamento do álbum "The Man Machine" ("Die Mensch Maschine"), que seria o disco do grupo mais bem recebido pela crítica especializada até então. A evolução musical, acompanhada disco a disco, era evidente, e "The Man Machine" não fugiria a esta lógica, trazendo composições cada vez mais complexas e inovadoras. O tema desta vez era a relação do homem com a máquina, um tema "kraftwerkiano" por excelência, já que os aspectos mecânicos das máquinas possuíam uma correlação evidente com as características automáticas da música eletrônica produzida pelo grupo. Faixas como "The Robots" e "The Man Machine" são uma síntese do espírito que norteava este álbum, uma irônica porém bem-humorada visão de temas que normalmente só eram abordados em obras de ficção científica. "Metropolis" era uma clara alusão ao clássico de Fritz Lang, precursor alemão dos filmes de ficção no cinema. "Neon Lights", uma romântica alusão aos luminosos de Berlim e Düsseldorf. A faixa de maior sucesso comercial foi, porém, sem grandes surpresas, a mais comum e trivial do álbum: "The Model" ficaria entre as 40 músicas mais tocadas na Inglaterra, onde o álbum venderia mais de 100.000 cópias. Para promover o álbum, o grupo realizaria algumas apresentações na Europa e nos EUA utilizando-se dos "dummies" no palco, caracterizados e vestidos exatamente como os membros do grupo. As camisas vermelhas com gravatas pretas que ficaram celebrizadas na capa do álbum eram mais uma das concepções de Emil Schult, e se tornariam uma marca registrada do grupo nas apresentações ao vivo da época.

 

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"Computer World" e a maior turnê mundial

No período de 1979/1981 o Kraftwerk concentrou suas forças na completa reformulação do estúdio Kling Klang, atualizando-o com novos equipamentos e computadores, e tornando-o totalmente modular, pronto para ser transportado em suas turnês. O álbum produzido neste período, "Computer World" ("Computer Welt"), torna-se um verdadeiro divisor de águas na discografia do Kraftwerk. A qualidade sonora e a complexidade do material lançado (1981) alcança um nível que poucas obras do gênero eletrônico conseguiriam igualar. Ocorre não só um salto qualitativo no aspecto sonoro, mas também no visual, adotando um formato de apresentação no palco que seria utilizado até os shows no Brasil, em 1998. Depois de uma série de álbuns conceituais, abordando temas como auto-estradas, radioatividade, trens, ficção científica e robôs, nada mais natural que o grupo escolhesse o universo dos computadores como próximo conceito. A simplicidade da capa contrastava com a sofisticação do conteúdo sonoro, naquele que certamente foi o mais ambicioso (e trabalhoso) projeto musical do grupo. "Computer World" mostra que o grupo havia atingido o pleno domínio das tecnologias de edição sonora ao seu alcance, e as diferenças em relação ao álbum anterior "The Man Machine" são evidentes. Em "The Man Machine" ainda eram perceptíveis alguns ruídos de fundo, fruto das diversas edições às quais o material gravado era submetido. Em "Computer World", a qualidade de gravação é cristalina, e o trabalho de percussão de Bartos e Flur é perfeito, gerando ritmos nunca ouvidos antes, inimitáveis em sua concepção; os efeitos sonoros são exatos, sem os exageros e maneirismos típicos do gênero eletrônico. Faixas como "Computer World" e "Home Computer" ilustram muito bem a habilidade de ambos para criar bases rítmicas complexas e originais. "Numbers", um funk eletrônico do tipo "arrasa-quarteirão", tornou-se uma das músicas mais copiadas de todos os tempos, gerando uma infinidade de versões que se utilizariam da mesma batida. Uma das mais conhecidas seria uma versão do americano Afrika Bambaataa and Soul Sonic Force, que misturou o ritmo de "Numbers" aos teclados de "Trans Europe Express", criando aquele que foi seu maior sucesso,"Planet Rock". "Pocket Calculator" se transformaria em outro destaque do repertório do grupo, principalmente quando tocada nos shows. Como a música se referia com humor às calculadoras de bolso, eles trataram de desenvolver para ela um número específico dentro das apresentações ao vivo, empunhando mini-teclados com sons semelhantes aos do álbum e aproximando-se do público, permitindo que este também tocasse os instrumentos. Durante muitos anos, esta era uma das músicas mais esperadas nos shows, em razão deste "ritual" criado entre o grupo e seu público. Em termos de apresentação de palco, as modificações também foram enormes. Após o lançamento de "Computer World", o grupo empreendeu sua segunda (e mais extensa) turnê mundial, tocando em diversos países da Europa, Estados Unidos, Japão, China, Austrália e até uma inesperada apresentação na Índia. O palco agora contava com o estúdio Kling Klang, totalmente modular, montado atrás dos músicos em uma impressionante estrutura em "V" (idéia de Wolfgang Flür) que permitia aos músicos total comunicação entre si enquanto acessavam seus consoles. Atrás do Kling Klang, 4 telões alinhados mostravam animações em sincronia com a música executada e o set de iluminação fora totalmente reformulado, com variações de intensidade e cor mudando a cada número. À frente de tudo, somente os músicos, cada um diante de consoles que incluíam teclados e diversos controladores para modificar os sons em tempo real. Essa concepção de palco era tão marcante que foi utilizada pelo grupo durante quase duas décadas. O produtor Pena Schmidt, que trouxe o grupo ao Brasil em 1998, daria suas impressões sobre a estrutura: "O palco deles, depois de montado, parecia um laboratório da NASA. Tenho certeza de que, com o passar dos anos, este palco será considerado uma forma de arte do século XX". De fato, a turnê foi um sucesso, e o álbum idem. A faixa "Computer Love" é lançada em compacto com "The Model" (do disco anterior), e alcança o primeiro lugar nas paradas britânicas em fevereiro de 1982, tornando o Kraftwerk o primeiro grupo alemão a alcançar tal feito.

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"Tour de France" e "Technopop", o álbum não lançado

 

Em 1983 é lançado um maxi-single de "Tour de France", uma das pioneiras no uso dos samplers, música composta em alusão ao ciclismo e à famosa competição européia. Há inclusive uma curiosidade a respeito do assunto: Ralf Hütter é um fanático por bicicletas, e treina assiduamente, tendo inclusive participado de algumas edições da própria Tour de France. "Tour de France" foi lançada nas versões em alemão e francês, tornando-se uma das prediletas de Ralf e Florian, sempre apresentada nos shows. Neste mesmo ano, Ralf sofre um sério acidente de bicicleta, permanecendo em coma por dois dias. Este acidente atrasaria a programação de lançamento de um novo álbum, que se chamaria "Technopop", seguido de uma mini-turnê para promovê-lo. O álbum acabou não sendo lançado, e as razões apontam para a insatisfação dos membros com a qualidade final da gravação e da mixagem. O álbum incluiria "Tour de France" e mais 3 faixas que foram lançadas mais tarde no álbum "Electric Cafe", porém modificadas. De fato, a comparação das versões destas faixas com as que foram lançadas em "Electric Cafe" mostram que a qualidade sonora era inferior, já que tinham sido gravadas com tecnologia analógica, e a tecnologia digital já estava à disposição dos músicos, permitindo um tratamento sonoro superior. As novas possibilidades da tecnologia digital levaram o Kraftwerk a repensar todos os seus processos de gravação, e nos próximos três anos seguintes eles atualizaram totalmente o estúdio Kling Klang, tornando-o apto a trabalhar com a nova tecnologia. De 1983 a 1986, ocorre nos processos de composição do grupo a migração do analógico para o digital. O resultado final é um novo álbum, lançado em dezembro de 86, chamado "Electric Cafe".

 

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"Electric Cafe": a era digital

"Electric Cafe" é o primeiro álbum totalmente digital do Kraftwerk, e o primeiro a ser vendido nas lojas também em formato CD. Desta vez, nota-se uma tendência do grupo em afastar-se da idéia de discos conceituais, procurando se aproximar dos ritmos e da sonoridade do techno e da dance music, que já invadia os clubes, as lojas e os meios de comunicação de todo o planeta. As faixas "Boing Boom Tschak", "Technopop" e Musique Non Stop" já formavam uma sequência que soava como uma única música, idéia que seria muito utilizada pela cultura DJ (mixagens). O uso de samplers torna o tratamento das vozes mais sofisticado, incorporando-as ao ritmo e à melodia ao mesmo tempo. "The Telephone Call" traz sons de vozes femininas e ruídos de telefones mixados à música, demonstrando a utilização da tecnologia dos "samplers", essencial para as composições que viriam a seguir. As mudanças não ocorreriam somente no aspecto sonoro: eles digitalizariam também sua própria imagem. A capa de "Electric Cafe" mostra os rostos digitalizados dos quatro membros, em um meticuloso trabalho de computação gráfica desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia de Nova York, que levou dois anos para gerar as animações. O vídeo-clip de "Musique Non Stop" mostra o resultado final, um trabalho de modelagem virtual formidável para a época. Embora houvesse grande expectativa dos fãs em relação a um novo álbum, "Electric Cafe" não obteve o mesmo impacto de "Computer World", com pouca repercussão no meio musical comercial.

 

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A saída de Flür e Bartos: novos membros

Durante os anos seguintes, Ralf e Florian particularmente, estavam convencidos da necessidade de converter os sons analógicos dos álbuns anteriores para o padrão digital, armazenando estes sons em samplers para a utilização em futuros shows e apresentações, além de eternizar digitalmente o material mais relevante produzido pelo grupo. Eles então puseram-se a trabalhar na meticulosa digitalização dos sons contidos em seus principais álbuns. Este trabalho muitas vezes monótono e cansativo começou a gerar a insatisfação de Flür e Bartos, que se mostravam mais interessados na edição de material novo, ao contrário de Ralf e Florian, que insistiam na reestruturação do material antigo. Esta vinha sendo a rotina do Kraftwerk desde 1987 até que, em janeiro de 1990, Wolfgang Flür anuncia sua saída do grupo, insatisfeito com a rotina e com os rumos tomados. Para assumir seu lugar, a escolha natural recai sobre um dos engenheiros do estúdio, Fritz Hilpert, já adaptado aos procedimentos do grupo e com os conhecimentos técnicos necessários para a função. Em fevereiro deste ano, o grupo realiza uma série de apresentações na Itália, que servem como teste para a utilização da nova tecnologia digital com a utilização de samplers no palco. Foram os últimos shows com a presença de Karl Bartos, que também anuncia sua saída do grupo, em agosto de 1990. Bartos iria se dedicar ao seu próprio projeto musical, batizado de Elektric Music. O relacionamento com Emil Schult também já não era tão intenso quanto antes, e ele acaba se afastando para dedicar-se a seus trabalhos artísticos pessoais. Flür também se dedicaria a um projeto musical pessoal, batizado de Yamo, mas lançaria seu próprio álbum somente em 1997.

 

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"The Mix": robôs e samplers

 

Enquanto isso, o Kraftwerk trabalhava na finalização de seu novo projeto: um álbum com suas principais músicas reconstruídas e adaptadas à sonoridade dos anos 90. Em junho de 91 é lançado "The Mix", álbum onde eles reconstroem faixas como "The Robots" e "Radioactivity" com novas batidas e sons, porém sem a perda da essência original. Com a cultura DJ em plena atividade, eles mesmos trataram de realizar o trabalho de atualizar seu material de acordo com as novas tendências musicais. Ralf estava satisfeito com o resultado final, maravilhado com as possibilidades da utilização dos samplers nas técnicas de mixagem, e considerava "The Mix" praticamente como um disco ao vivo. De fato, a forma com que o Kraftwerk se utilizaria destas técnicas no palco, mixando e interferindo nos elementos pré-gravados (samplers) em tempo real, fariam com que eles criassem uma nova forma de apresentar suas músicas ao vivo, bem semelhante ao que conhecemos hoje como "Live-PA".

Para mostrar as novas sonoridades, o Kraftwerk empreende em 91 sua terceira grande turnê, excursionando por toda a Europa. Para o lugar de Karl Bartos é escolhido o português Fernando Abrantes, que no entanto participa apenas dos shows apresentados no Reino Unido. Ele logo é substituído por outro engenheiro da equipe, Henning Schmitz, completando a formação que permanece até hoje. Uma das novidades dos shows de 1991 é a introdução dos novos robôs no conceito visual do grupo. São construídos 4 robôs com as feições de cada membro do grupo, providos de braços móveis e remotamente controlados por cada músico. Estes robôs começam a fazer parte das apresentações ao vivo, com um número próprio especificamente programado para eles. Em certo momento do show, os integrantes originais saem do palco e os robôs é que comandam o espetáculo, movendo os braços no ritmo da música ("The Robots", é claro), numa espécie de ballet digital e com mais um efeito visual impressionante. Com os novos recursos à disposição, o Kraftwerk tinha realizado com sucesso a transição da tecnologia analógica para a digital, colocando os pés nos anos 90 com a mesma desenvoltura com que haviam criado um estilo único de criar música eletrônica. Durante os anos seguintes, alguns shows realizados em 92 e 93 na Europa e um prolongado silêncio, onde os fãs questionavam qual seria o próximo projeto idealizado por Ralf e Florian.

Mais um novo desafio estava surgindo no horizonte, e o Kraftwerk, naturalmente, não ficaria alheio a ele. A segunda metade da década de 90 experimentava um extraordinário avanço na indústria da informática, com o surgimento de softwares de edição sonora e de emulação de instrumentos musicais. Isso significava um novo desafio de adaptação à esta nova realidade tecnológica, embutindo grande parte dos equipamentos de tratamento e geração sonoros dentro dos computadores. Esta nova transição levaria quase uma década para se completar, e o período dos anos 90 só traria material novo do Kraftwerk no final de 1999. Mas, paralelo ao trabalho de estúdio, os shows continuavam, e o grupo apareceu novamente em 1997 na Inglaterra, estreando um novo visual no palco, apresentando-se com roupas de material sintético com listras neon e óculos escuros, de notável aspecto futurista. Em 1998 eles excursionam pelo Japão, EUA, Europa e, pela primeira vez em sua história, tocam na América do Sul, com concertos no Brasil e Argentina. Os concertos no Brasil ocorreram no Rio de Janeiro e em São Paulo, dentro da programação do Free Jazz Festival. Estes seriam os últimos concertos com a impressionante estrutura do estúdio Kling Klang no palco, marca registrada dos shows do grupo desde a turnê de 1981. A tecnologia já consolidada dos softwares de edição e samplers virtuais viria a modificar totalmente sua estrutura de palco, mais tarde.

 "The Mix": robôs e samplers Enquanto isso, o Kraftwerk trabalhava na finalização de seu novo projeto: um álbum com suas principais músicas reconstruídas e adaptadas à sonoridade dos anos 90. Em junho de 91 é lançado "The Mix", álbum onde eles reconstroem faixas como "The Robots" e "Radioactivity" com novas batidas e sons, porém sem a perda da essência original. Com a cultura DJ em plena atividade, eles mesmos trataram de realizar o trabalho de atualizar seu material de acordo com as novas tendências musicais. Ralf estava satisfeito com o resultado final, maravilhado com as possibilidades da utilização dos samplers nas técnicas de mixagem, e considerava "The Mix" praticamente como um disco ao vivo. De fato, a forma com que o Kraftwerk se utilizaria destas técnicas no palco, mixando e interferindo nos elementos pré-gravados (samplers) em tempo real, fariam com que eles criassem uma nova forma de apresentar suas músicas ao vivo, bem semelhante ao que conhecemos hoje como "Live-PA". Para mostrar as novas sonoridades, o Kraftwerk empreende em 91 sua terceira grande turnê, excursionando por toda a Europa. Para o lugar de Karl Bartos é escolhido o português Fernando Abrantes, que no entanto participa apenas dos shows apresentados no Reino Unido. Ele logo é substituído por outro engenheiro da equipe, Henning Schmitz, completando a formação que permanece até hoje. Uma das novidades dos shows de 1991 é a introdução dos novos robôs no conceito visual do grupo. São construídos 4 robôs com as feições de cada membro do grupo, providos de braços móveis e remotamente controlados por cada músico. Estes robôs começam a fazer parte das apresentações ao vivo, com um número próprio especificamente programado para eles. Em certo momento do show, os integrantes originais saem do palco e os robôs é que comandam o espetáculo, movendo os braços no ritmo da música ("The Robots", é claro), numa espécie de ballet digital e com mais um efeito visual impressionante. Com os novos recursos à disposição, o Kraftwerk tinha realizado com sucesso a transição da tecnologia analógica para a digital, colocando os pés nos anos 90 com a mesma desenvoltura com que haviam criado um estilo único de criar música eletrônica. Durante os anos seguintes, alguns shows realizados em 92 e 93 na Europa e um prolongado silêncio, onde os fãs questionavam qual seria o próximo projeto idealizado por Ralf e Florian. Mais um novo desafio estava surgindo no horizonte, e o Kraftwerk, naturalmente, não ficaria alheio a ele. A segunda metade da década de 90 experimentava um extraordinário avanço na indústria da informática, com o surgimento de softwares de edição sonora e de emulação de instrumentos musicais. Isso significava um novo desafio de adaptação à esta nova realidade tecnológica, embutindo grande parte dos equipamentos de tratamento e geração sonoros dentro dos computadores. Esta nova transição levaria quase uma década para se completar, e o período dos anos 90 só traria material novo do Kraftwerk no final de 1999. Mas, paralelo ao trabalho de estúdio, os shows continuavam, e o grupo apareceu novamente em 1997 na Inglaterra, estreando um novo visual no palco, apresentando-se com roupas de material sintético com listras neon e óculos escuros, de notável aspecto futurista. Em 1998 eles excursionam pelo Japão, EUA, Europa e, pela primeira vez em sua história, tocam na América do Sul, com concertos no Brasil e Argentina. Os concertos no Brasil ocorreram no Rio de Janeiro e em São Paulo, dentro da programação do Free Jazz Festival. Estes seriam os últimos concertos com a impressionante estrutura do estúdio Kling Klang no palco, marca registrada dos shows do grupo desde a turnê de 1981. A tecnologia já consolidada dos softwares de edição e samplers virtuais viria a modificar totalmente sua estrutura de palco, mais tarde.

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"Expo 2000" e novos conceitos

Em 1999, eles são contratados para criar um tema para a Exposição de Hannover, na Alemanha, a Expo 2000. Em dezembro deste ano, é lançado o álbum "Expo 2000", com quatro versões variando sobre o tema criado. Este álbum já é totalmente produzido com a nova tecnologia de edição por software, utilizando-se de ferramentas como o Cubase e o Halion, produtos da empresa alemã Steinberg. O resultado é de uma altíssima qualidade de som e precisão absolutas. No ano seguinte, programa-se uma apresentação do Kraftwerk durante o evento de Hannover, que acaba sendo cancelado. Ironicamente, quem acaba realizando o concerto no lugar do grupo é ninguém mais que... Karl Bartos, interpretando músicas do Elektric Music e do próprio Kraftwerk.

Em novembro de 2000 é lançado um álbum intitulado "Expo 2000 Remix", contendo uma série de remixes de Expo 2000 com músicos convidados pelo grupo, como Orbital, Underground Resistance e DJ Rolando. Embora não seja um álbum do Kraftwerk, é um produto produzido e licenciado pelo Kling Klang Studio. A capa de Expo 2000 Remix traz de volta o trabalho gráfico de Emil Schult, que volta a se aproximar do grupo.

Enquanto trabalham na edição de um novo álbum, é anunciado em 2002 uma série de shows na Europa e no Japão, e uma surpreendente série de apresentações dentro da programação de um festival de rock na Austrália em 2003, o "Big Day Out". Em setembro de 2002, eles estréiam o novo formato do show em grande estilo, com shows na casa Vooruit, na Bélgica, no moderno auditório da Cité de la Musique de Paris e em Luxemburgo. Uma surpresa para todos os fãs: o formato de apresentação havia mudado substancialmente em relação ao palco de 81/91. Nada da enorme estrutura do Kling Klang e dos robôs dançantes, apenas 4 pequenas consoles, uma para cada músico, havendo um único telão de 15 metros atrás dos músicos, no lugar dos quatro telões menores dos shows anteriores. Nada de roupas neon e óculos extravagantes, apenas discretas roupas pretas. Mas a aparente simplicidade visual na verdade escondia uma mudança que acompanhava a nova tecnologia que fora adotada pelo grupo: agora todo o controle sobre a interpretação das músicas estava sob o comando de quatro laptops (Sony VAIO, um para cada músico), de onde os membros gerenciavam cada nota e ritmo reproduzido no palco. Os computadores também sincronizavam as músicas com os vídeos exibidos no telão, gerando um som denso e cristalino, praticamente com uma qualidade de estúdio reproduzida ao vivo. Com a nova estrutura de palco, mais leve e portável, tornou-se mais fácil para o grupo excursionar com relativa flexibilidade, já que no período em que o Kling Klang ocupava o palco era complicado planejar as viagens, pois o transporte do material era caro e trabalhoso. Naquele período, diversas apresentações do grupo foram canceladas devido aos custos proibitivos que inviabilizaram a realização dos shows. A prova de que o novo formato lhes permitia mais flexibilidade de ação veio em Janeiro de 2003, quando o grupo realizou oito shows na Austrália e Nova Zelândia, dentro do Big Day Out, um festival onde normalmente se apresentam estrelas e grupos de rock. Foi a primeira vez que o grupo realizou uma série mais extensa de shows fora do circuito Europa/EUA, procurando testar o novo equipamento sob condições diversas. Um mês antes, haviam tocado no Japão em ambiente fechado, sob baixas temperaturas. O contraste com o ambiente aberto de um grande festival como o Big Day Out, sob o calor do verão australiano, serviu como um bom parâmetro da resistência e adaptação dos novos equipamentos aos extremos das condições climáticas que eles poderiam enfrentar em seus futuros shows.

 

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"Tour de France Soundtracks": o novo álbum

 

Durante as apresentações na Austrália, Ralf Hütter concederia uma entrevista a uma rádio, onde afirmava que o grupo trabalhava na finalização de um novo álbum, e que este já estaria 99% pronto. As expectativas eram enormes entre os fãs, pois se tratava do primeiro álbum com material realmente novo em mais de 15 anos. Em julho, é lançado um single com 4 faixas, "Tour de France 2003", uma amostra do material que seria lançado no novo álbum que viria a seguir. Em um primeiro momento, houve certa surpresa dos fãs em relação ao tema, já utilizado em outro single lançado em 1983, "Tour de France". O single de 1983 deveria fazer parte de um álbum chamado "Technopop", que acabou não sendo lançado. Como a famosa corrida completaria seu centenário de existência em 2003, o momento era perfeito para retomar o projeto adiado de um álbum dedicado ao tema. A paixão de Ralf e Florian pelo ciclismo se fazia expressar através da idéia que já havia sido anunciada em "Expo 2000": "Man, Nature, Technology", a perfeita sincronia entre homem, natureza e tecnologia. Com letras em francês alusivas à corrida, o single trazia 4 novas versões de "Tour de France", mais simples em sua concepção melódica e rítmica, mas produzidas com uma qualidade sonora impecável. A reação dos fãs foi diversa, alguns se decepcionaram em um primeiro instante, esperando algo do mesmo nível de obras como "The Man Machine" e "Computer World", outros mostraram-se satisfeitos com a nova sonoridade, mais simples em sua concepção, sintonizando as tendências da música eletrônica atual, porém com uma qualidade sonora que poucos conseguiam atingir.

O single preparou o terreno para o lançamento do álbum propriamente dito, que ocorreria em agosto: "Tour de France Soundtracks" era uma obra totalmente conceitual, trazendo temas que envolviam o ciclismo e a famosa corrida francesa. Os destaques ficariam por conta das faixas novas, como "Vitamin", "Aéro Dynamik" e "Elektro Kardiogramm". Para esta última, Ralf Hütter gravou os sons das batidas de seu coração e as utilizou como base para desenvolver o ritmo da música. O resultado é uma sonoridade densa e marcante, um dos pontos altos do álbum. Além de 3 das faixas lançadas no single, o disco ainda trazia uma versão diferente para a "Tour de France" original de 1983, fechando um álbum que, de certa forma, ajustava as contas com o passado, pois o projeto "Technopop", adiado na época, finalmente se tornava realidade na forma como Ralf e Florian o haviam imaginado inicialmente. "Tour de France Soundtracks" teve uma boa recepção de público e crítica, e recolocava o Kraftwerk em destaque na mídia planetária, com várias reportagens e análises publicadas sobre o novo trabalho. Em Novembro, pela primeira vez em sua carreira, o Kraftwerk faz uma apresentação oficial ao vivo na TV, dentro da programação do MTV Europe Music Awards 2003. Transmitido para todo o mundo, o evento apresenta a todos o conceito de palco do grupo, onde som e imagem se fundem de tal forma que as atenções passam adiante da mera presença dos músicos no palco para todo o espetáculo propriamente dito. O foco está na sincronicidade entre o som, as imagens e as sensações que essas combinações provocam, e não no culto à personalidade dos artistas como estrelas do show business, é como se a presença física deles no palco não fosse tão importante, mas sim o resultado final das relações audiovisuais de tudo o que se percebe em seus shows. Eles apresentam um faixa do novo álbum, "Aéro Dynamik", pela primeira vez, e a escolha não foi aleatória: a música também deve ser lançada em formato single em março de 2004, assim como a faixa "Elektro Kardiogramm". Para complementar as novidades do novo álbum e a apresentação inédita na TV, o Kraftwerk anuncia para 2004 uma turnê mundial, que deverá abranger a Ásia, Europa e Américas do Norte e do Sul.

Para o grupo que ajudou a escrever a história da música eletrônica moderna, elevando-a à categoria de arte ao mesmo tempo sofisticada e popular, o século XXI traz possibilidades técnicas enormes para o desenvolvimento de suas músicas, e o Kraftwerk já encontrou seu lugar na linha de frente das inovações, como aliás tem sido há mais de 30 anos. Embora já possuam um lugar garantido no seleto grupo de artistas que ajudaram a revolucionar seu gênero, eles permanecem em atividade constante, e suas novas criações prometem fixar as coordenadas dos caminhos que a música eletrônica poderá seguir nos próximos anos.

Kraftwerk - Music Non Stop 

 

 

 

 

 

 

 

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1 comentário(s)

  • Dj Banana

    Ter 16 Dez 2008 22:00

    Maravilhoso.............................
    Sou previligiado, toquei o som destes caras.


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